26 janeiro, 2026

O Fim do Bacharelado em Psicanálise. E agora?

No dia 26 de janeiro de 2026, a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior publicou no Diário Oficial da União uma portaria que operou mais do que uma alteração administrativa; ela promoveu um descentramento do discurso institucional. A determinação de transmutar o título de "Bacharelado em Psicanálise" para Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais agiu como um catalisador de tensões há muito latentes no campo. 

Essa mudança de nomenclatura não deve ser lida apenas sob o viés burocrático, mas como uma crise do Imaginário desencadeada pela queda de um significante-mestre: o Título. Enquanto alguns setores receberam a notícia com alívio ético, outros mergulharam em uma revolta que beira o desamparo subjetivo. Para compreendermos esse fenômeno, é preciso analisar como a universidade se posiciona diante de um saber que, por definição, escapa às métricas acadêmicas tradicionais. 

Os Pingos nos 'Is': A Universidade como Braço Teórico 

A alteração do nome do curso é, fundamentalmente, um ato de honestidade intelectual e clareza institucional. O Movimento Articulação, composto por analistas de longa trajetória, tem sustentado um embate histórico contra a titulação acadêmica de "psicanalista", argumentando que o formato universitário é estruturalmente incapaz de abarcar o tripé psicanalítico (teoria, análise pessoal e supervisão). 

Existe uma impossibilidade ética e jurídica: a universidade não pode, por força de lei ou de currículo, exigir que um discente se submeta à análise pessoal como condição para a graduação. A transferência, motor da clínica e da formação, não pode ser quantificada em um histórico escolar ou avaliada por notas. Assim, o bacharelado cumpre sua função social ao oferecer o embasamento teórico, mas a responsabilidade pelo "vir-a-ser" analista permanece sendo um percurso do sujeito. 

A mudança deixa explícita que o curso só representa a parte teórica da formação, e que não forma de fato psicanalistas, mas é apenas uma parte do percurso.

Luto e Resistência: O Furo no Real e a Ferida Narcísica 

As reações apaixonadas dos estudantes — que vão de ameaças de judicialização a alianças políticas — revelam o tamanho da identificação imaginária depositada no diploma. A queixa de que foram "lesados" ao comprar um produto e receber outro expõe uma visão mercantilista que colide com o rigor da transmissão psicanalítica. 

A metáfora utilizada por alguns alunos, comparando a mudança ao início de um curso de engenharia para receber um certificado de "mestre de obras", revela um erro de categoria fundamental. Enquanto a engenharia lida com a técnica da construção, a psicanálise habita a dimensão do habitar subjetivo. O analista não é um técnico de reparos psíquicos, mas alguém que sustenta um lugar de escuta. 

Sob a ótica lacaniana, esse mal-estar é a manifestação de um "furo no Real". O diploma funcionava como uma prótese imaginária, prometendo um "ser" que a titulação burocrática não pode conferir. A perda desse título denuncia a eterna falta que precisa ser simbolizada. Para quem já sustenta o seu percurso através do tripé, a nomenclatura é irrelevante; para quem buscava o amparo do papel para evitar o encontro com a própria falta, a mudança é vivida como uma castração insuportável. 

A Ilusão do Diploma: A Ética da Auto autorização 

A questão que se impõe é: quem, de fato, se autoriza pela titulação? No campo psicanalítico, vigora a lógica de que "o analista se autoriza por si mesmo... e por alguns outros". Esse processo de reconhecimento simbólico não emana de uma portaria ministerial, mas da travessia de uma análise pessoal e da validação pelos pares na supervisão. 

Aqueles que contavam exclusivamente com o diploma para se intitularem psicanalistas, ignorando a análise e a supervisão, são justamente os que fornecem subsídios para os críticos do bacharelado. Paradoxalmente, a decisão do MEC protege o percurso dos estudantes sérios. Ao alinhar a expectativa nominal com a realidade do que a academia pode oferecer — a excelência teórica —, o Estado retira a psicanálise do risco da banalização e força o sujeito a buscar os outros dois eixos do tripé fora dos muros universitários. 

O Medo do Futuro e o Paradoxo da Regulamentação 

Há um temor latente de que a mudança de nome abra caminho para uma reserva de mercado, onde a psicanálise se tornaria "propriedade" exclusiva da psicologia ou da psiquiatria. Entretanto, o cenário revela um paradoxo fascinante: o mesmo Movimento Articulação que lutou contra a nomenclatura do bacharelado é o que defende com mais vigor a não regulamentação da psicoterapia. 

Como bem pontuado pelo colega Marcel Brandão: “A pauta principal do Movimento Articulação é a não regulamentação da psicoterapia. Que eles, agora, voltem a focar nessa questão, porque, se eles, e todos nós estivermos engajados, os projetos dos psicólogos não passa”. 

O foco da militância institucional deve ser o engajamento coletivo contra projetos que visam estatizar ou regulamentar a prática clínica de forma corporativista. Se a comunidade psicanalítica permanecer vigilante na defesa do caráter laico e independente do seu saber, o projeto de reserva de mercado não prosperará. A proteção da psicanálise não reside no nome impresso no papel, mas na manutenção de sua ética subversiva e extra institucional 

O Percurso que Continua Além do Papel 

O bacharelado continua existindo e continua sendo um grau acadêmico de valor inestimável. No entanto, agora ele ostenta um nome que honra a verdade da sua entrega: o estudo rigoroso da teoria psicanalítica e suas intersecções sociais. A clínica, por sua vez, exige um compromisso que nenhum MEC pode certificar. 

A mudança imposta pela portaria de 2026 é um convite ao amadurecimento institucional e subjetivo. Ela convoca o estudante a sair do lugar de consumidor de títulos para ocupar o lugar de sujeito de seu desejo. Se o diploma não faz o analista, o que em você sustenta o desejo de escutar o inconsciente alheio? O percurso começa, verdadeiramente, quando o papel deixa de ser a garantia. 

22 janeiro, 2026

Racismo e Psicanálise: 5 Pontos que Mudam Nossa Visão sobre o Preconceito Estrutural

Por que o racismo persiste com tamanha ferocidade, mesmo em sociedades que se pretendem democráticas? Para nós, no campo da psicanálise e da crítica cultural, a resposta não reside apenas em "erros individuais" ou má educação, mas em uma estrutura que habita as dobras do nosso inconsciente. O racismo não é um acidente histórico; é o que organiza o laço social. Ao cruzar Lacan e Fanon, percebemos que o preconceito está "lá fora" nas instituições e "aqui dentro" na forma como sustentamos nossa própria identidade. 

O Racismo é Estrutural, não um Acidente de Percurso 

O primeiro grande ponto é que o racismo opera como uma gramática da sociedade. Como bem define Sílvio Almeida, trata-se de um fenômeno estrutural. No Brasil, essa estrutura é o sedimento de séculos de escravidão que, longe de ser superada, deixou marcas que ditam quem tem direito à habitação, ao emprego e à vida. 

Não se trata de procurar "o racista" na sala, mas de entender como as normas institucionais privilegiam sistematicamente um grupo. A desigualdade na justiça criminal, por exemplo, não é uma falha do sistema, mas o sistema funcionando em sua plenitude para manter hierarquias herdadas. 

"A escravidão, que durou até o final do século XIX, deixou marcas profundas na sociedade brasileira, e as consequências desse legado ainda são visíveis hoje em pleno século 21." (Contexto de análise de Almeida, p. 41). 

O "Sintoma Social": O Racismo como Anteparo para a Angústia 

Jacques Lacan nos ensina que o ser humano é um "sujeito dividido", marcado por uma falta de sentido intrínseca. O segundo ponto é que o racismo funciona como um sintoma social para lidar com essa divisão. O sujeito tenta "fechar a fenda" entre o seu Real, Simbólico e Imaginário elegendo um "Outro" para odiar. 

Ao projetar no negro a causa de seu mal-estar, o racista tenta estancar sua própria angústia e dar um sentido artificial ao caos do mundo. O racismo, portanto, serve para "manter a ordem social", oferecendo uma identidade rígida (embora ilusória) em troca da alienação. É uma tentativa desesperada de negar a própria incompletude. 

Segundo Lacan (1992a), o racismo é "uma maneira de lidar com a divisão do sujeito e com a falta de sentido no mundo." 

O Discurso do Mestre-Capitalista e a Mais-Valia do Gozo 

O terceiro ponto revela a engrenagem econômica por trás da psique: o capitalismo atua como o "Outro" no Discurso do Mestre. Lacan utiliza o matema S1 \ S2 para mostrar como o Mestre (S1) comanda o saber do trabalhador (S2) para produzir um "mais-gozar" (objeto a). 

Nesta dinâmica, o trabalhador negro é alienado no saber do Outro capitalista, que comanda o discurso racial para justificar a exploração. O sistema transforma a identidade em mercadoria e a pele em justificativa para a extração de lucro. O "Mestre" moderno não quer apenas o trabalho; ele consome o excedente de gozo produzido pela subjugação. 

  1. Justificativa de salários baixos: O racismo valida a exploração econômica direta. 
  2. Divisão dos trabalhadores: Impede a solidariedade de classe ao oferecer ao trabalhador branco um "pequeno privilégio" simbólico. 
  3. Alienação no saber do Outro: O sistema dita as normas do que é ser "normal" ou "superior". 

Fanon e a Urgência de Descolonizar o Inconsciente 

Frantz Fanon, psiquiatra que desafiou a psicanálise eurocêntrica, trouxe o quarto ponto: o racismo gera uma neurose coletiva. Ele criticou as teorias tradicionais por ignorarem a experiência única dos colonizados, falhando em perceber que a "inferioridade" negra não é um trauma familiar, mas um trauma social imposto. 

Em Pele negra, máscaras brancas (1952), Fanon descreve como o oprimido é levado a adotar máscaras culturais do opressor para tentar ser reconhecido como humano. A libertação real exige uma decolonização mental: não basta mudar as leis se a subjetividade ainda estiver acorrentada aos valores do colonizador. É preciso reconstruir uma identidade que não passe pelo espelho deformante do homem branco. 

A Dimensão Escópica e Geográfica na Literatura 

O quinto ponto surge na arte: o racismo é uma questão de perspectiva (o olhar escópico) e localização. Mario de Andrade expõe isso com precisão cirúrgica ao descrever o preconceito como algo que depende da distância do olhar: 

"Um negro vem vindo, é branco! / Só bem perto fica negro, / Passa e torna a ficar branco." (ANDRADE, 2020). 

Aqui, a raça é definida pelo "olhar" que se aproxima ou se afasta — uma identificação visual (escópica) que flutua. Já Carolina Maria de Jesus nos mostra a classificação geográfica e social do ser negro. Ao relatar como em África a classificação é direta ("Negro . Negro turututú"), ela revela que a identidade é também onde o corpo está situado no mapa do poder. 

A censura recente de obras como "O avesso da pele" nada mais é do que o medo institucional de confrontar essas verdades psíquicas que a literatura escancara: o racismo como uma doença social de repressão e alienação. Como sentenciou Carolina: "Negro é aquele que respeita." 

Para Onde Olhamos Agora? 

A luta antirracista é indissociável da compreensão das nossas estruturas psíquicas e econômicas. Não se desmantela um sistema de lucro sem desmantelar os discursos de mestre que o sustentam no nosso inconsciente. O racismo é um sofrimento psíquico que nos adoece a todos, oprimidos e opressores, em diferentes graus de alienação. 

A ética psicanalítica exige que não recuemos diante do mal-estar. Reimaginar a conectividade e o laço social requer o desmonte das fantasias de superioridade que ainda sustentam o pacto civilizatório contemporâneo. 

A luta decolonial é o imperativo ético da nossa era. Como ensina a tradição fanoniana, a libertação exige a decolonização das mentes. A psicanálise, ao desvelar as raízes psicológicas do racismo, torna-se uma ferramenta de resistência, permitindo que o sujeito, enfim, reafirme sua própria humanidade diante de uma civilização que insiste em fragmentá-la. 


Uma Análise Crítica do Sistema e do Culto em Torno de Jacques Lacan

  O Enigma da Esfinge Parisiense   Jacques Lacan atravessou o século XX menos como um clínico e mais como uma divindade secular, uma esfinge...